Trinta e Seis
Hoje, resolvi visitar o pai de um grande amigo que morreu de overdose. Toquei a campainha; ele me abraçou, ofereceu café e perguntou se eu precisava de alguma coisa. Eu e o Luiz cheirávamos muito pó juntos. O filho dele, morto. Nunca houve mágoa da parte do pai, muito pelo contrário. Acho que ele gosta de me ver – talvez eu traga alguma lembrança do quanto fui amigo do filho.
Em certo momento, ele foi tomar banho, e eu me sentei no capô do Fiat Tempra enferrujado, abandonado no quintal, onde o Luiz gostava de cheirar. Acho que foi ali que ele morreu, enforcado no quintal. Eu tava fora da cidade na época - ano novo, filho pequeno.
Sentei no carro, acendi um cigarro e fiquei olhando para a mangueira que cobria quase todo o quintal com sua sombra. Dei algumas tragadas e sussurrei: "Você faz uma falta do caralho, irmão. Queria te dizer tanta coisa." Meus olhos se encheram de lágrimas, e então uma manga verde caiu no capô, me dando um puta susto.
Às vezes, a gente sai de cena cedo, como fruta verde que ainda não amadureceu. Não tive coragem de pedir sal e comer a manga. Me ajoelhei na terra preta, cavei um pouco com as mãos e enterrei a fruta. Que do outro lado da vida meu amigo amadureça. A gente precisa ser doce; na vida de alguém. Ele foi na minha.

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